2 - Paisagens Transfiguradas


"O ócio de não ter poder é real"

Mês 2

Os dias estavam céleres. As noites, bem longas. O trabalho, exigente. 

Sempre a noite observava as pessoas dos prédios vizinhos, esta era a minha paisagem. Todos vivendo suas vidas, comendo, fazendo algo no celular, assistindo TV.

Nesses poucos meses iniciais do isolamento todos sempre estavam em casa, um ou outro apartamento vazio, apagado, escuro.

Eu sentia falta da Lua a noite, ou de sentir um vento salino fresco. Mas sempre tinha a mesma paisagem, varandas e prédios,  pessoas normais, módicas.

Noites em claro vendo o dia nascer lilás, com permanentes prédios em primeiro plano, imóveis.

Comecei a passar dias sem abrir as cortinas. Até que fiz o que todo isolado começou a fazer, comprei plantas e em uma regada e outra, voltava a ver varandas. 

Tarde da noite, após trabalhar 18 horas, lembrei de regar as plantas já murchas. Percebi uma nova varanda na paisagem imutável, com uma luz fraca, alguém dançado sozinha, a silhueta era visível através da cortina. O que me chamou atenção foram as plantas desta varanda, todas na mesma posição que as minhas, com o mesmo tipo de pallet, só que de outra cor. Pensei em ter me tornando uma influência, afinal eu também era varanda.

Os dias passavam quase que inalteráveis, me sentia cada vez mais sozinha, havia me afastado de todos que não respeitavam o isolamento, egoístas banais . Mesmo bebendo e assistindo Lives, as redes sociais começaram a se tornar cada vez mais tediosas e repetitivas.

Mais um vinho, mais uma noite, mais uma live. Até que os devaneios de outros tempos voltaram, não de forma reveladora, mas como sentimentos presentes ao meu redor.

Encontrei o abismo. Acordei no sofá.

Maria Marx

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