3 - Sombras Sonoras


"Não existem sentimentos que se percam através do espelho"

Retração Noturna

A princípio não lembrava bem com quem estava falando ao sair do banheiro, mas sabia que não estava mais sozinha em casa.

Também sentia que não era nada morto, mas alguém perdido.

Neste dia mais cedo as panelas haviam sido batidas nas varandas. Mas aquela varanda que havia chamado atenção outro dia continuava com as cortinas fechadas. Com uma diferença, a janela do quarto estava meia aberta com uma luz tênue vermelha. Vejo alguém passar, mas não tinha uma forma conhecida.

O interfone toca, chegam mais vinho. As lives haviam ficado pra trás, perderam a graça. Voltaram as Músicas aleatórias, antigas, boas lembranças. Encontrei o abismo novamente, mas desta vez estava andando no corredor, sem saber se realmente havia entrado no banheiro.

Com quem havia conversado? quem falou com você? Sem muitas respostas. Apenas não era nada morto.

Olho para varanda, a luz oscila. 
Mas um cigarro. O vinho acaba. Abre a cachaça. Abismo.

Percebo estar em pé no banheiro olhando para o espelho, a luz apagada. Não sinto medo, e ela fala, "Não abra as cortinas". Fui tola, não era ela que estava perdida, eu que estava. Abismo.

Acordo no sofá mais uma vez, com a mesma manhã gélida e lilás. 

Maria Marx

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